A simplicidade da narrativa e a bela poesia do mesmo autor de Aristóteles e Dante, Benjamin Alire, se repete no livro A lógica inexplicável da minha vida, que também traz personagens homossexuais e a família e a amizade como alicerce na vida de qualquer pessoa que vive seus infortúnios na trajetória difícil de uma vida.



A sensibilidade e a calmaria de seres com almas belas e atitudes plausíveis é uma constante nos personagens de Benjamin, no seu segundo livro lançado pela Editora Seguinte no Brasil. A lógica inexplicável da minha vida é um livo que traz em si uma história de crescimento e descobrimento, mas também de mudanças. 

Salvador é um jovem garoto que vive uma vida tranquila ao lado de seu pai adotivo gay e de Sam, sua melhor amiga. Mas no último ano do ensino médio o garoto começa a passar por mudanças sobre as quais ele não consegue ter controle, como uma ira que não costumava sentir e agora grita dentro dele. Além disso, Salvador tem que aprender a conviver com a ideia de que a qualquer momento sua avó e amiga pode morrer, com uma tragédia na vida de Sam e que a deixa desolada e também com o fato de um ex-namorado do pai ter aparecido e ambos estarem se reaproximando. São sentimentos que se misturam, indo do luto ao amor, da amizade à solidão. É nesse período que Sal, como é carinhosamente chamado, começa a questionar sua origem, começa a querer se entender nesse processo de mudança e tenta encontrar alguma lógica para a sua vida - que mais do que nunca dá a ele grandes desafios para que ele possa superar a si mesmo e seus medos de encarar o novo.

Sensibilidade é uma palavra que define perfeitamente o retrato que o autor pinta enquanto escreve. Mais uma vez Benjamin nos apresenta a uma família belíssima, que vive o amor e a amizade de maneira única. Cada um com suas diferenças, a família de Salvador é uma bela fotografia de uma família feliz, de gente que se entende e se respeita. 

Trazer à tona um pai homossexual, que em vários momentos se anulou de alguma forma para dar conforto ao filho, prezando pela sua educação, é um ato de muito respeito e essa representatividade do pai gay, tão pouco vista na literatura, e talvez mal visto pelos conservadores, importa sim. E o autor em questão se preocupa em fazer isso muito bem e com muita generosidade na sua história. Nesse texto lindo nos deparamos com personagens tão cheios de luz e tão ricos de valores e empatia, que é bem fácil se apaixonar logo de início e não largar mais a leitura.

A narrativa continua rápida, direta, com a marca de uma pergunta a ser refletida que fica pairando no ar. O leitor pode se sentir questionado acerca das perguntas do próprio personagem, o que é uma ótima maneira de repensar atitudes, sejam elas a partir dos personagens preconceituosos e até mesmo daqueles personagens vítimas da injustiça e do preconceito.

Salvador é o personagem que mais vive seus conflitos nesse momento. O garoto foi adotado quando era muito criança, após a morte de sua mãe e agora, com todo esse período de crescimento como pessoa se depara com perguntas frequentes e naturais a um rapaz que não conhece muita coisa do seu passado e de sua origem. Quem é seu pai, como ele é, por exemplo, é uma das perguntas que ele passa a se fazer. Sal também começa a questionar suas atitudes perante a vida e as oportunidades que tem, a sorte de ter uma família que o ama e a sorte de não lhe faltar nada. Isso se dá muito no momento em que o personagem se aproxima de um colega de classe, que é gay e é discriminado pela família de pais e irmãos drogados, que vivem numa condição de vida ruim. 
"- Por que você não foi para minha casa? - perguntei.- Sério, Sal?Você acha que eu faria isso? Não, cara, eu tenho meu orgulho. - Ele continuou falando e dizendo que encontraria um jeito e que nada o impediria de ir para a faculdade e eu fiquei me sentindo um idiota. Porque era uma coisa que eu tinha de mão beijada, como um presente debaixo de da árvore de Natal que eu sequer queria abrir." (Pág.264)
Sam também é uma personagem que que ajuda ao garoto perceber muitas coisas. Ele e a garota, que se conhecem desde muito cedo, são inseparáveis e vivem suas desavenças e seus momentos de ciúmes comum a dois amigos de infância. Não diria que um se apoia no outra, mas ambos dão as mãos nos momentos mais simples aos mais tristes e improváveis. Aqui temos uma amizade pura e bonita, entre um garoto e uma garota. E um novo amigo igualmente abraçado e amado por eles e pela família deles, o tão carismático e atraente Fito. 
"(...) Sempre vou lembrar do seu olhar. Você me enxergou. Você sempre me enxergou. Acho que isso é tudo que alguém quer. É por isso que o Fito adora vir aqui. Ele foi invisível a vida toda. E, de repente, ficou visível. Enxergar alguém. Enxergar alguém de verdade. Isso é amor." (Pág.: 326)
Talvez um dos pontos a serem questionados e repensados em "A lógica inexplicável da minha vida" é a maneira como a vida de cada personagem é exposta. De fato, são personagens vivendo seus altos e baixos, mas vivendo um lugar perfeito, a solução perfeita para seus problemas, encontrando o abraço e o apoio perfeito. Acredito ser um pouco perigoso esse tipo de imagem perfeita de família e aceitação. Percebo essa romantização nos livros do autor. Não aponto como sendo negativo a ponto de prejudicar a história, mas sim na questão da problematização sobre como é possível existir problemas maiores nessas família também. Mais do que isso, como isso é comum.

Por outro lado, são tantas as histórias tristes envolvendo personagens gays, muitos desastres, na TV, nas novelas o tempo inteiro, representando essa dura realidade (e acho isso importante sim), que ler uma história como essa é confortante, é agradável e se faz um carinho para a alma, tanto do leitor  que vive a difícil trajetória de ser homossexual num país ainda tão preconceituoso, quanto ao simpatizante ou os de fácil empatia que entende o quanto isso é doloroso e machuca o outro.

Nem romantizar, nem tornar a coisa drástica demais. É PRECISO PENSAR NUM FUTURO MELHOR, FAZER POR ONDE, MAS ENTENDER QUE OS PROBLEMAS ESTÃO AÍ E AS FAMÍLIAS NÃO SÃO SEMPRE PERFEITAS. CUIDADO PARA NÃO FECHAR OS OLHOS.

"A lógica inexplicável da minha vida" é um livro que te dá prazer durante a leitura, que te faz sorrir das pequenas bobagens e situações mais simples, até às grandes demonstrações de amor e respeito. Um livro sobre mudanças necessárias, percepções, amor e, acima de tudo, AMIZADE E COMPANHEIRISMO.

Bjux,
com carinho.





14 comentários:

  1. Não conhecia o livro e adorei sua resenha. Parece uma história bem bonita e que trata de pontos bastante importante. Dica anota.
    Amei a capa.

    Beijos

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  2. Oi Dih, tudo bem? Como eu não conheço o autor não sabia dessa questão da romantização mas é um ponto a se refletir mesmo. De qualquer forma parece ser uma boa história. Adorei a resenha!

    Bjs, Mi

    O que tem na nossa estante

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  3. Olá, Diego.
    Eu tenho vontade de conhecer a escrita do autor. Acho que a intenção dele pode ter sido criar uma família como ela deveria ser e não com pais excluindo os filhos de sua vida quando o filho não é o que o pai esperava. Eu já li alguns livros com país gays, mas eles não eram o foco e tiveram pouco destaque. Vou anotar a dica e se der vou ler ele.

    Prefácio

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  4. Já conheço o livro, ainda não tive a oportunidade de me aprofundar em sua história, mas suas resenha deixa muito bem claro a principal mensagem presente no livro, de que precisamos de ter mais empatia e mais respeito pelo próximo.

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  5. Eu nunca li nem esse e nem o outro livro do autor, mas já ouvi muitos elogios. Parece que os sentimentos ultrapassam as palavras na história. Ler algo que podemos trazer ensinamentos para nossa própria vida, a "vida real". Eu gosto dessas histórias que inspiram e emocionam. E essa capa está muito linda. Como sempre, você trazendo uma ótima dica de leitura :)

    www.vivendosentimentos.com.br

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  6. Em primeiro lugar muito obrigado pelo seu comentário, fiquei muito sensibilizado com tantas palavras bonitas! <3

    Este livro está no topo da minha wishlist, na verdade, espero que alguém me o ofereça no Natal, eheh! Adorei a resenha :)

    MRS. MARGOT

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  7. Não conhecia esse livro, sua resenha é boa, gostei das citações que você colocou!

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  8. Oi Diego. Eu estou louca por esse livro desde que uma bookgrammer que eu adoro falou nele. Tudo me chamou atenção, a história, a capa e o cuidado que o autor teve com algumas coisas. Concordo com você na parte que fala sobre romantizar. Realmente acho que queremos encontrar algo diferente do que vemos nesse mundo cruel, mas acho que os autores precisam aprender a lidar com problemas em seus livros. Problemas normais, sabe? Qual vai ser o jantar ou se vão comer besteira?! Um quer ver novela e outro futebol. São coisas tãos bobas, mas que podem geram conflitos tão bobos quanto, mas mostram que nem tudo sempre vai ser 100%. Adorei a sua resenha, que me deixou com mais vontade de ler o livro. Pena que minha cota da BF já foi e ele vai ter que esperar mais um pouco. Linda a sua foto também. Beijos

    https://almde50tons.wordpress.com

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  9. Oi, Di! Tudo bem? Acho a capinha desse livro meio cafona e até fiquei lendo a sinopse quando a Companhia mandou o e-mail, mas não me chamou nem um pouco a atenção. Mas enfim, fico feliz que tu tenha gostado! É a sua cara mesmo! :)

    Abraço

    http://tonylucasblog.blogspot.com.br/

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  10. Apaixonei ela capa, estou curiosa e já quero ler.

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  11. A temática é importantíssima, mas oq mais gostei foi a forma de abordá-la! Concordo completamente com você: no meio de tanta tristeza e perseguição, um livro como este é um carinho merecido a toda comunidade. Muito boa a análise. Abraço.

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  12. Oi Diego,
    você escreve com o coração, dá para perceber. Seus texto ficou lindo não tem como não se emocionar com a história contada a partir do seu ponto de vista. Acredito que nunca encontrei um autor com a sensibilidade desse e pelo visto esse é o segundo livro. Já começa pelo título do livro. Tenho certeza de que irei gostar. Parabéns pela resenha.
    bjs.
    Pri.
    http://nastuaspaginas.blogspot.com.br/

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  13. Oi, Diego, gostei muito da sua resenha. Eu acho que a primeira vez em que ouvi falar desse autor deve ter sido aqui no seu blog (ou em alguma resenha na blogosfera, mas tenho muito a sensação de que foi aqui, pois me parece ecoar na linguagem familiar essa lembrança). Posso estar inventando isso, mas tenho uma impressão tão viva, que não poderia deixar de partilhá-la...
    Entendo muito esse certo incômodo que você descreve, com todos os personagens vivendo em alguma medida um lugar perfeito, com uma solução perfeita para seus problemas. Entendo que essa não é a realidade da maioria das pessoas LGBTs no mundo. Mas há duas semanas, assisti a uma mesa com duas escritoras incríveis, a Conceição Evaristo (uma autora negra sensacional) e a Natália Polesso (uma jovem autora que ano passado ganhou o Jabuti com seu livro de contos, um livro em que todas as protagonistas são lésbicas. Ela contou que decidiu (uma decisão provisória como todas as decisões estéticas que se tomam, já que o processo criativo sempre pode sugerir novos rumos) que todas as histórias que ela escrever serão com personagens lésbicas, sobretudo pensando na ausência de representatividade dessas vozes. E que uma dos grandes retornos que ela teve foi e uma leitora jovem que falou que o que mais gostou nos contos é que eram personagens lésbicas vivendo conflitos comuns, e que o fato de serem lésbicas não era em si o conflito dentro da história. Pensei que talvez o autor tenha desse livro tenha a mesma intenção. A sexualidade não será (sempre, já que um dos personagens tem conflitos familiares exatamente por ser homossexual) o cerne dos conflitos das personagens. Como eu não li o livro, pode ser que ele erre a mão, criando situações tão perfeitas que não soem verossímeis (e nesse caso também não deveriam ser verossímeis para personagens héteros).
    Enfim, são apenas digressões que me vieram a partir de sua excelente resenha!
    Deixo um forte abraço!
    https://teofilotostes.wordpress.com/

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  14. Olá, tudo bem?
    Eu já li muitos elogios para as obras desse autor e para esse livro. confesso que o fato de ele retratar a questão de um pai homossexual se anular enche meu coração de alegria, pois é aquela coisa "dois iguais cuidam do que dois diferentes abandonaram". Esse livro parece acrescentar muito, sabe? E gostei disso.
    Espero que a oportunidade de ler surja em breve.
    Beijos,
    Um Oceano de Histórias

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